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sábado, 29 de setembro de 2012

Do Estadão - Pouco turismo ameaça conservação



Para especialista americano, baixa visitação aos parques nacionais é um 'mau presságio'

27 de setembro de 2012 | 3h 08

Bruno Deiro - O Estado de S.Paulo
O baixo índice de visitantes nos parques nacionais ajuda a explicar a falta de engajamento para a implantação de unidades de conservação no País.


É uma das constatações que o norte-americano James Barborak, especialista da Universidade do Colorado, pretende apresentar hoje em sua palestra no 7.º Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação (CBUC), em Natal.
Segundo levantamento feito pelo Ministério do Turismo em 2011, os 31 parques nacionais abertos ao público receberam 4 milhões de visitantes em 2009 - nos EUA, apenas um, o Great Smoky Mountains National Park, recebe anualmente cerca de 10 milhões.
"São só alguns milhões de visitantes por ano, em um país com quase 200 milhões de habitantes. Isso não é um bom presságio para aumentar o apoio do público e dos tomadores de decisão para a necessidade de conservação", diz Barborak, que dirige o Centro de Treinamento e Manejo de Áreas Protegidas da Universidade do Colorado. "É preciso melhorar a infraestrutura de acesso com trilhas, locais de observação e áreas de piquenique, com a ajuda da comunidade e de parcerias público-privadas."
Para Barborak, o turismo é a melhor forma de angariar apoio à causa, mas não pode servir como forma de financiamento, mesmo nos próprios parques. "Até nos EUA as taxas de turismo cobrem apenas 10% do total da verba para os parques nacionais", afirma.
Ele defende um amplo sistema nacional de conservação, com ações integradas de todas as esferas do governo, para que haja verbas estáveis. "As perspectivas a longo prazo para qualquer sistema de áreas protegidas dependem em grande parte de se ter estratégias econômicas sustentáveis, e múltiplas formas de financiamento", afirma. 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O trem das 7h40 - crônica de José de Souza Martins

Momento tristezas do Jeca. Deliciosa crônica de José de Souza Martins, publicada pelo Estadão em 27/08/2012.


José de Souza Martins - O Estado de S.Paulo
Quando viajávamos para a casa de meus avós maternos, no Arriá, bairro rural do Pinhalzinho, em Bragança Paulista, o trem sempre saía da estação da Luz no mesmo horário: 7h40 da manhã. Na ansiedade da viagem, de madrugada já começavam nossas férias de começo e de meio de ano. Tomávamos o trem em São Caetano aí pelas 6h, para estar na Luz às 6h30. O trem para Jundiaí partia da plataforma da Rua Mauá. Nervosismo, excitação, disputa para achar um lugar junto à janela. E a São Paulo urbana ia raleando até a Lapa, os bairros e subúrbios românticos e calmos fugindo ao olhar na pressa do trem, agarrados à cauda de fumaça da locomotiva a vapor. Da Lapa em diante começava o interior, cheiro de capim-gordura, casas esparsas, roças aqui e ali, vacas pastando, anúncios do Café Paraventi nas estações isoladas. Lá longe, o Pico do Jaraguá viajando em sentido contrário.
Depois de Belém de Jundiaí (hoje Francisco Morato) vinha Botujuru, estações muito antigas. Adiante, o túnel, vidros levantados às pressas para evitar que as fagulhas da locomotiva a vapor queimassem a roupa domingueira dos viajantes. O bilheteiro passava, cantando: "Próxima estação, Campo Limpo! Baldeação para a Bragantina!"
Campo Limpo era um lugar ermo, apenas a estação e umas poucas casas de empregados da ferrovia. Suas manhãs eram lindas manhãs de roça, mato e neblina, cheiro de café coado de pouco. O trem da Bragantina saía 10 minutos depois da chegada do da São Paulo Railway. Dava tempo para um cafezinho no bar da estação, um pastel, um doce. Se tempo não desse, havia o sanduíche de mortadela e a Tubaína, refrigerante do interior, vendidos no trem por um empregado uniformizado. A locomotiva era antiga, do século 19, que tinha nome, "Dr. Luiz Leme", em enorme placa de metal. Hoje ela descansa sob um telheiro junto ao local em que houve a estação do Taboão, em cuja praça fronteira as folhas largas dos plátanos amarelavam e caíam com a passagem do tempo e da vida.
O trem chegava em Bragança às 11h07. Do outro lado da rua, à porta da Pensão Brasil, parava a jardineira dos Granatos, que ia para Socorro e Thermas de Lindoia. Subia devagar a Serra das Araras. No meio do caminho parava para que os passageiros tomassem a água de uma bica, que vinha do meio da mata e lá do alto. Do lado de baixo, um extenso cafezal, de velha fazenda, cuja sede e cujas tulhas eram pintas brancas no verde distante. Pouco adiante, na Rosa Mendes, descíamos. Depois, era uma caminhada de dez minutos até a casinha branca de pau a pique de meus avós, e o feijão com farinha de milho, do almoço, o aroma do café plantado, colhido, secado, pilado, torrado, moído e coado por minha avó. Um aroma que se sentia de longe. No meio do caminho uma velha araucária, que talvez ainda exista, carregada de pinhões e de saudade.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Aves da Amazônia estão mais ameaçadas do que nunca, alerta UICN

Compartilhando notícia de hoje do site do Estadão. Os grifos eu acrescentei e levam às paginas do wikiaves  das espécies que ocorrem no Brasil.


No total, são 95 as espécies das Américas que subiram a categorias de risco maior na Lista Vermelha

07 de junho de 2012 | 12h 09

Efe
GENEBRA - As aves que habitam na Amazônia estão mais ameaçadas do que nunca, pois o risco de extinção de uma centena de espécies aumentou neste ano, segundo a nova edição da Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) divulgada nesta quarta-feira.
O documento conclui que o risco de extinção aumentou "substancialmente" para cerca de uma centena de espécies de aves da Amazônia e destaca o caso do Chororó-do-rio-branco (Cercomacra carbonaria) e do João-de-barba-grisalha (Synallaxis kollari)
A Lista Vermelha classifica as espécies em nove categorias, conforme o grau de ameaça ao qual estão submetidas. Existem dois grupos ("Não avaliado" e "Dados insuficientes") para designar as espécies das quais há poucas informações, e outros sete grupos que as ordenam de acordo com o risco de extinção.
Por ordem de menor para maior risco, os grupos são: preocupação menor, quase ameaçada, vulnerável, em perigo, em perigo crítico, extinta em estado silvestre e extinta.
Na última edição da Lista Vermelha, o Chororó-do-rio-branco era uma espécie "quase ameaçada", enquanto o João-de-barba-grisalha foi catalogado como "em perigo". Já nesta nova atualização, ameaçadas pelo desmatamento, as duas espécies avançaram a categorias de maior risco, e o João-de-barba-grisalha foi considerado "em perigo crítico".
"Subestimamos o risco de extinção de muitas das espécies de aves da Amazônia", lamentou o diretor de Ciência, Política e Informação da ONG BirdLife, Leon Bennun. Segundo ele, a situação pode ser pior que o previsto em decorrência do que chamou de "enfraquecimento" da legislação florestal brasileira, referindo-se ao polêmico recém-aprovado Código Florestal.
No total, são 95 as espécies das Américas que subiram a categorias de risco maior, entre as quais também se encontra o Mergulhão-de-touca (Podiceps gallardoi, agora em "perigo crítico") e a Tesourinha-da-mata (Phibalura flavirostris), uma espécie recém-descrita que foi pela primeira vez avaliada como "em perigo".
A Lista Vermelha também reconhece certos avanços na conservação de algumas espécies animais, como o Formigueiro-do-litoral (Formicivora littoralis), pequeno pássaro da Mata Atlântica que passou de "em perigo crítico" a uma categoria de menor risco após se descobrir que está mais difundida do que se achava.
Embora a situação de um grande número de espécies de aves da Amazônia tenha piorado, o relatório da UICN é otimista com relação ao Formigueiro-do-litoral, pois considera que seu futuro é mais seguro, já que a área onde vive esta espécie foi recentemente declarada protegida.
A atualização de 2012 também adverte sobre uma piora na situação do Pato-de-cauda-afilada (Clangula hyemalis), considerado agora uma espécie "vulnerável", frente à "preocupação menor" da última edição da Lista Vermelha. Também na Europa, o Pato-fusco (Melanitta fusca) passou de "preocupação menor" para a categoria "em perigo". 

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Trilha para observar pássaros é inaugurada em Ubatuba, São Paulo

Boa notícia que saiu no Estadão de ontem (12/04/2012)
"Uma nova trilha para observação de pássaros foi inaugurada na Praia de Itamambuca, em Ubatuba. A trilha conta com placas de identificação, painéis com fotos e nomes das principais espécies da região, além de comedouros ao longo da Avenida Itamambuca. Por causa da enorme diversidade de espécies no município, a proposta é oficializar os pontos de observação entre os roteiros que serão oferecidos durante a copa de 2014. Ubatuba está em uma das regiões mais íntegras da Mata Atlântica"
de Sabrina Valle, Fábio Grellet, José Maria Toazela e Reginaldo Pupo.

domingo, 17 de julho de 2011

Uma panda, dois falcões e um ninho de águia

do Estadão de 27/06/2001 - Caderno Link


Uma panda, dois falcões e um ninho de águia

Por Redação Link
▪▪▪ Transmissão do cotidiano de bichos via internet diz mais sobre o homem do que sobre a vida animal
Su Lin, panda do zôo de San Diego. FOTO: FRED GREAVES/ REUTERS
Por Marlene Zuk
Los Angeles Times
Nunca foi tão fácil bisbilhotar vidas privadas ao redor de todo o planeta. Quando Su Lin, nascida em San Diego e filha de chineses, foi examinada pela primeira vez, os espectadores entusiasmados a chamaram de o bebezinho mais lindo de todos os tempos.
Quando uma mãe de três filhos morreu num acidente de avião, deixando o pai sozinho para cuidar da família, milhares de pessoas dos Estados Unidos manifestaram na rede o seu pesar.
E enquanto um jovem da Universidade de Nova York (NYU) se preparava para voar, seu mural no Facebook recebeu incontáveis mensagens de apoio.
Será que eu mencionei que os protagonistas destes casos são todos animais?
A família de pandas sino-americanos encanta o zoológico de San Diego há anos; o acidente de avião envolveu águias na cidade de Norfolk, Virgínia; e o filhotinho quase em idade de voar é um falcão-de-cauda-vermelha que saiu do ovo no parapeito do escritório do presidente da NYU.
De instalações amadoras no fundo do quintal a elaborados sistemas de vídeo que acompanham as atividades diárias de tubarões e ursos polares, as webcams que transmitem ao vivo imagens de animais nos mostram nascimentos, romances, farsas e mortes – animais se comportando como animais 24 horas por dia, sete dias por semana. Aves de rapina como falcões e águias são muito populares, mas pode-se acompanhar o dia a dia de esquilos, furões, ursos e até galinhas. (Para os que duvidam, aviso que as galinhas levam vidas repletas de drama e diversão. Podem acreditar.)
Para todos. O apelo é óbvio. As câmeras deste tipo são uma janela mostrando aspectos da vida animal que nunca poderíamos conhecer na ausência delas, como uma versão particular do canal Animal Planet.
As câmeras representam um voyeurismo sem culpa, a intimidade sem a invasão da privacidade. E aquelas vidas não perdem a força de suas intrigas por não serem humanas. Parte do motivo pelo qual me tornei bióloga foi o fascínio por seres que parecem ao mesmo tempo ser exatamente como nós e ter vindo de um universo completamente diferente. As câmeras permitem que o resto do mundo – os não cientistas – participe da diversão.
Mas a característica dos animais que os assemelha a nós é também a razão que nos leva a fazer comentários a respeito das imagens. Os comentários nos sites de webcams são repletos de antropomorfismo, o que talvez não surpreenda, e os comentaristas não parecem se intimidar.
Depois que a águia mãe morreu, as emoções ficaram à flor da pele. “Que antropomorfização (sic) que nada”, um seguidor fiel declarou. “As águias não formariam elos emocionais de longo prazo e nem continuariam suas vidas se não sentissem exatamente o mesmo tipo de emoção que nos leva a agir desta maneira.”
Quando os céticos rechaçaram opiniões como essa, outros defenderam o primeiro internauta: “É claro que os animais têm emoções, e esta águia macho deve estar sentindo tanta dor, numa certa maneira aguial (sic), quanto uma pessoa sentiria”.
Filhotes de falcão no ninho. FOTO: Reprodução
Eles e nós. Sinto grande admiração pelo cunhador do adjetivo “aguial” e aplaudo esse tipo de parentesco com outros organismos. Mas há o risco de afirmar tal parentesco com um excesso de insistência. Deixando de lado as aparências, os animais não são exatamente como nós, assim como nenhum de nós é exatamente como os outros.
Os coelhos e os sabiás levam vidas diferentes, e não podemos esperar que a vida de nenhum deles imite a de um ser humano. Como podemos saber o que sentem os animais? Isso é impossível. Podemos olhar para cérebros de animais, podemos observar seu comportamento, mas sua vida íntima é misteriosa.
Se convencermos a nós mesmos que os animais espelham nossos sentimentos – nada mais e nada menos –, perderemos a oportunidade de descobrir como são de fato as outras espécies e corremos o risco de homogeneizá-las numa gigantesca e bestial reflexão do humano.
É então que os detalhes nos escapam. Se supusermos que os pares animais sejam sempre monogâmicos, ou sempre promíscuos, talvez não possamos compreender por que certas espécies são fiéis aos companheiros enquanto outras mantêm múltiplos parceiros. Os animais fazem ambas as coisas, e manter nossos próprios preconceitos fora da equação é essencial se quisermos compreender o comportamento deles.
Se acharmos que um grande número de filhos traz alegria, talvez não possamos compreender como as garças botem mais ovos do que jamais poderão criar, o que leva a uma violenta rivalidade entre os irmãos para decidir quem será o vencedor.
É até mesmo possível que comecemos a tomar partido, se um chupim (que se aproveita de outras espécies para criar seus filhotes) jogasse para fora do ninho o ovo de um cardeal e o substituísse por seu ovo, simplesmente porque o cardeal se tornou o protagonista da novela que se passa no nosso jardim.
Finalmente, temos o problema de estabelecer o limite. Será que nossos elos emotivos devem ser estendidos às águias e corujas, aos pandas e filhotes, às cobras? Às água-vivas? Às bactérias? A maioria das pessoas não encontra dificuldade em ver seus sentimentos espelhados por um mamífero, ou mesmo pelas aves maiores, mas, e quanto ao restante dos plumosos, escamados e dotados de nadadeiras?
Um dos motivos pelos quais gosto de estudar os insetos é a dificuldade de vê-los como pequenas pessoas. Eles têm uma vida social complexa e maravilhosa apesar da aparência alienígena. E eu aproveito para me despir de preconceitos, descobrir pequenas realidades não humanas e reconhecer o valor que os insetos têm sendo simplesmente aquilo que são.
As câmeras que acompanham a vida dos insetos são menos populares, mas há algumas, como uma webcam que acompanha baratas sibilantes de Madagáscar. Elas são mães muito atenciosas. Mas aposto que ninguém capturou uma imagem da tela e a enviou à mamãe como presente no dia das mães.
* Marlene Zuk é professora de biologia da Universidade da Califórnia em Riverside, escreve sobre a multiplicação de webcams transmitindo ao vivo o dia-a-dia de animais ao jornal norte-americano Los Angeles Times.
/ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Curtir é Covardia / Pássaros - por Jonathan Franzen

O texto abaixo é uma parte (a parte que eu mais gostei, é claro) de um ensaio publicado na edição de hoje (06/06/2011) do Caderno Link do Estadão. O autor é Jonathan Franzen, escritor norte-americano autor de Liberdade.


Pássaros. Quando estava na faculdade, e por muitos anos depois disto, eu curtia o mundo natural. Eu não o amava, mas sem dúvida o curtia. A natureza pode mesmo ser algo muito belo. E, como eu estava em busca de coisas no mundo que me parecessem erradas, gravitei naturalmente na direção do ambientalismo, pois sem dúvida havia muitas coisas erradas com o meio ambiente. E quanto mais eu olhava para aquilo que estava errado – uma população mundial em explosão, o consumo desenfreado dos recursos naturais, o aumento nas temperaturas globais, a contaminação dos oceanos, o corte das últimas florestas antigas –, mais furioso me tornava.
Finalmente, em meados dos anos 90, tomei conscientemente a decisão de parar de me preocupar com o meio ambiente. Pessoalmente, não havia nada de significativo que eu pudesse fazer para salvar o planeta e, além disso, tinha vontade de seguir na vida me dedicando às coisas que amava. Continuei me esforçando para manter pequena minha “pegada de carbono”, mas esse parecia ser o meu limite antes de recair na raiva e no desespero.
Foi então que me ocorreu algo engraçado. Trata-se de uma história comprida, mas, basicamente, apaixonei-me pelos pássaros. Isto não ocorreu sem uma resistência considerável, pois é muito cafona ser um observador de pássaros, já que qualquer indício que revele uma paixão verdadeira é, por definição, algo cafona. Mas, aos poucos, apesar da relutância, desenvolvi essa paixão e, se metade de uma paixão é a obsessão, a outra metade é o amor.
Bem, devo admitir que mantive uma lista meticulosa das espécies de pássaros que eu já tinha visto e admito também que fiz esforços incomuns em nome da oportunidade de conhecer espécies diferentes. Mas, igualmente importante, sempre que olhava para um pássaro, qualquer pássaro, mesmo uma pomba ou um tordo, eu sentia o coração transbordar de amor. E o amor, como venho tentando expor aqui, é onde começam nossos problemas.
Pois agora, não apenas curtindo a natureza, mas amando uma parte específica e vital dela, eu não tinha escolha a não ser voltar a me preocupar com o meio ambiente. As notícias sobre este assunto não tinham melhorado desde a época em que decidi parar de me importar com elas – eram na verdade consideravelmente piores –, mas agora aquelas florestas e pântanos e oceanos ameaçados não eram mais cenários bonitos dos quais eu poderia desfrutar. Eram o lar de animais que eu amava.
E foi então que um curioso paradoxo emergiu. A raiva e a dor que eu sentia diante da situação do planeta só foram amplificadas por minha preocupação com os pássaros silvestres, mas, conforme eu aprendia sobre a preservação dos pássaros e me envolvia com esse tipo de iniciativa, aprendendo cada vez mais a respeito das ameaças que os pássaros enfrentam, tornou-se mais fácil, e não mais difícil, conviver com a raiva, o desespero e a dor.
Como pode ser uma coisa dessas? Acho que, para começar, meu amor pelos pássaros se tornou um portal para uma parte importante e menos autocentrada de mim, que eu nem mesmo sabia que existia. Em vez de seguir à deriva pela vida de cidadão global, curtindo e descurtindo e guardando meu envolvimento para algum momento posterior, fui obrigado a confrontar uma parte de mim que até então eu tinha de aceitar totalmente ou rejeitar absolutamente.
Exatamente aquilo que o amor faz com uma pessoa. Pois a questão fundamental envolvendo a todos nós é o fato de que vivemos por algum tempo, mas morreremos em breve. Esse fato é a verdadeira causa fundamental de toda a nossa raiva, dor e desespero. E a pessoa pode optar por fugir desse fato ou, por meio do amor, aprender a aceitá-lo. Quando ficamos em nossos quartos e bufamos ou caçoamos ou damos de ombros indiferentemente, como eu fiz durante tantos anos, o mundo e seus problemas parecem impossivelmente desafiadores. Mas, quando saímos e nos colocamos em relacionamentos reais com seres reais, ou mesmo animais reais, há o perigo bastante real de amarmos alguns deles.
E quem pode prever que rumo a vida tomará então?
• Autor de Liberdade, (Cia das Letras), Frazen escreveu este ensaio a partir de um discurso de abertura feito por ele no dia 21 de maio em Kenyon College.
/TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL


Se quiser ler o ensaio todo, clique aqui


Celebrado escritor e ensaísta norte-americano, Jonathan Franzen é um dos principais nomes da atual literatura de seu país. Ele atingiu esse status ao lançar o livro As Correções (Cia. das Letras) em 2001, quando ganhou o National Book Award e foi finalista do prêmio Pulitzer do ano seguinte. O ensaio aqui publicado é quase uma continuação de outro (I Just Called to Say I Love You) que escreveu há três anos para a revista Technology Review e que colocava os celulares na berlinda. O alvo desta vez são as redes sociais.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Do estadão.com.br : Pequenos produtores mantêm reserva legal

Eles recuperaram ou preservaram área de mata exigida pelo Código Florestal, com vantagens ambientais e econômicas


02 de março de 2011


Leandro Costa e José Maria Tomazela - O Estado de S.Paulo


Até meados do mês, está prevista a votação, no Congresso Nacional, de modificações no Código Florestal. O relatório do deputado federal Aldo Rebelo (PC do B-SP), já aprovado em comissão especial, isenta, entre outras medidas, pequenas propriedades, de até 4 módulos fiscais (que variam conforme a região), da recomposição de reserva legal, além de reduzir a área de proteção de cursos d"água e mananciais.
Epitácio Pessoa/AEAbundância. João Carlos Wincler comemora volta da mina após recuperar área degradada
Mesmo pequenos e na contramão dessas modificações propostas pelo deputado, os produtores abaixo preservaram ou recuperaram a área de Reserva Legal exigida pelo atual Código, que determina que 20% da propriedade tenha mata nativa, sem contar Áreas de Preservação Permanente. No caso da Amazônia, a reserva deve ser de 80%. Estes produtores relatam os benefícios ambientais e econômicos da opção, não só para os seus negócios, como para o entorno.

Capela do Alto. O agricultor João Carlos Wincler estava a ponto de desistir da lavoura e da criação de gado de leite no Sítio da Alvorada, em Capela do Alto (SP). O terreno é declivoso e a cada chuva ele via brotar a erosão, que abria sulcos no mandiocal e acabava com o pasto. "A mina de água secou e tivemos de dar água da torneira para o gado." Wincler e os três irmãos herdaram do pai a propriedade de 14,5 hectares e não tiveram o cuidado de evitar que o gado pisoteasse a pequena mata do sítio. A capoeira de 3,6 hectares estava sendo dizimada, além da erosão.

Há quatro anos, eles aderiram ao programa estadual de microbacias e receberam a visita do agrônomo Antonio Vieira Campos, da Casa da Agricultura local. "Ele mandou cercar a mata para o gado não entrar e recomendou que recuperássemos a área degradada."

Com equipamentos do programa, foram construídas duas bacias de contenção na parte de cima do terreno. Na parte mais sujeita às enxurradas foram plantadas touceiras de bambu e outras espécies de crescimento rápido. Os resultados logo surgiram. Sem o gado comendo os brotos e plantas novas, a mata encorpou. A mina voltou a jorrar. "É uma água tão boa que a gente enche os galões para beber." O pasto passou a produzir mais e a produção de leite melhorou.

O melhor mesmo foi recuperar a mina. O veio de água tornou-se permanente e, além de abastecer gado e lavoura, encorpa o riacho que atende às propriedades vizinhas. Pequenos produtores de abobrinha e outras hortaliças usam a água para irrigação. "Do jeito que estava indo, o sítio ia acabar", diz José Carlos, que não se importa de destinar à reserva legal mais de 20% da área do sítio. "Quando passamos a cuidar da mata, tudo melhorou, até a lavoura."

Em Apucarana. Quando regularizou a situação da sua propriedade, em Apucarana (PR), há três anos, o cafeicultor Paulo Fenato perdeu 3, de 38 hectares de cultivo. Para recompor a área de reserva, arrancou 3.500 pés de café. Fenato não se sente punido, porém. "Foi necessário. Não só porque a lei pede, mas porque a preservação dos recursos naturais depende disso", diz ele, cuja propriedade está na bacia do Rio Pirapó, que, além de Apucarana, abastece municípios da região central do Paraná, como Maringá.

Compensar a redução na área de plantio não está sendo tão difícil. Com técnicas avançadas em uma pequena parcela da propriedade ele já igualou a produção anterior. "Substituí o plantio convencional pelo adensado em 2 hectares e já recuperei a perda. Se antes eu plantava 550 pés/hectare, agora planto 4.100 no mesmo espaço." Fenato pretende multiplicar a produtividade nos próximos anos, estendendo o adensamento para toda a lavoura.

Em relação às vantagens de preservar, Fenato diz: "A paisagem mudou. Depois que reflorestei minha propriedade ela voltou a ter vida, com bichos e pássaros", diz. Ele frisa a importância da preservação. "Quanto mais a natureza sofrer, mais nós, produtores, sofreremos". Para preservar as mata ciliares e manter a reserva legal, ele recebe da Prefeitura de Apucarana um prêmio mensal de R$ 562. Junto com outros 68 produtores, ele integra o Projeto Oásis Apucarana, da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Turismo, que visa a incentivar a conservação das matas em torno dos Rios Pirapó e Tibagi, que banham a região.

Também em Apucarana, o sojicultor Satio Kayukawa diz que nunca contou com os 9 hectares de área de preservação de seu sítio. Quando comprou a propriedade de 36 hectares, no fim da década de 1980, ela já possuía essas áreas de reserva e só mexeu nelas para substituir 1.800 eucaliptos por árvores nativas.Há, dentro da propriedade, seis nascentes, que ele diz cuidar com zelo. "Elas são minha garantia de água boa." O investimento em variedades de soja mais produtivas permitiu ao produtor tocar a propriedade sem expandir a área de plantio, de 17 hectares.

Casa Branca. Em Casa Branca (SP), o agricultor Odair Mira investe em uma área de reserva legal no sítio no qual é sócio com o irmão. "Não quero ter problemas com a lei e, além disso, sempre adotei práticas conservacionistas, como curvas de nível", diz Mira, que possui 48 hectares e cultiva milho e feijão. Para preservar 20% da área, ele abriu mão de parte do pasto, agregando-o a um trecho de mata. "Retirei os animais e cerquei a área. Fiz um projeto de reflorestamento, mas ainda não sei quanto vou gastar." Ele conta que há seis anos, dentro do programa de microbacias do governo estadual, obteve R$ 5 mil de financiamento para investir na preservação. "Comprei calcário, cerca, arame, mourão, mudas, tudo com recursos desse projeto. Plantei 500 mudas que hoje ajudam a compor a área de reserva", diz. "Nunca mais tive problema com erosão." Mesmo sabendo que a reserva não dará retorno imediato, ele acredita que o investimento trará outro ganho, já que o sítio está em área de microbacia e é cortado por um córrego que ajuda no abastecimento de água de vários produtores. "Na seca, o córrego some", diz. "A reserva deve nos ajudar a ter água o ano todo." Na região, muitos produtores cultivam feijão e adotam a irrigação por pivô. Mira acredita, porém, que 20%, para um pequeno produtor, é muita coisa. "Se plantando alguma coisa já é difícil ter lucro, imagine abrir mão de 20% de área? Não adianta só o produtor preservar a mata. Cada um precisa fazer a sua parte." / COLABOROU FERNANDA YONEYA







domingo, 19 de dezembro de 2010

Bom ou Ruim? Imóveis começam a ser desapropriados no Parque Nacional de Itatiaia

Bom, porque o primeiro parque nacional do Brasil, após 70 anos de existência ainda não foi inteiramente desapropriado.
Ruim, porque a possível desapropriação dos  cinco hotéis que ficam dentro do parque pode limitar lamentavelmente a possibilidade de usufruir o parque. Dormir e acordar dentro de um parque como Itatiaiai é uma experiência maravilhosa, talvez isso não seja mais possível no futuro. Espero que prevaleça um pouco de bom senso. Confiar no bom senso é meio ingênuo, mas fazer o que? é só o que nos resta.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Música - A partitura dos pássaros


Publicado no site O Eco


A partitura dos pássaros

No fim de agosto de 2009, o músico Jarbas Agnelli abriu seu jornal e deparou-se com uma foto de pássaros pousados em cabos elétricos. A disposição lembrava tanto o desenho de notas musicais, que ele teve a ideia de lê-la como tal e compor uma música. Quando terminou, mandou o resultado para o fotógrafo Paulo Pinto, do Estado de São Paulo, que havia feito a foto no interior do Rio Grande do Sul. Emocionado, ele enviou a imagem original que era mais larga do que a publicada e continha os acordes que faltavam para completar a melodia. O resultado é lírico. Fez tanto sucesso que ganhou o mundo. Conheça os detalhes da história e ouça a melodia no vídeo abaixo.


TEDxSP 2009 - Jarbas Agnelli: "Birds on the Wires", uma música e sua história from TEDxSP on Vimeo.


sábado, 28 de agosto de 2010

Uma foto, uma história, uma música

foto de Hélvio Romero

Esta foto foi publicada no Estadão do dia 13 de agosto. Nesse dia ela virou música. “O Violino e o Viaduto”  foi composta por Daniel Galli  para linda voz de Rhaissa Bittar.







Portal Imprensa » Últimas Notícias
Publicado em: 16/08/2010 19:20
Artistas compõem dez músicas em 24 horas a partir de notícias de jornais
Por Eduardo Neco/Redação Portal IMPRENSA
Compor dez músicas em um prazo de 24 horas a partir de notícias retiradas de jornais. Essa foi a proposta da terceira edição do projeto Disco Em Um Dia, da Panela Produtora, que aconteceu, na última sexta-feira (13), na sede da produtora, no bairro da Vila Madalena (SP), e reuniu artistas do selo e seus sócios/produtores Daniel Galli, Edu Santana, Filipe Trielli e Diego Gomes.
Para os participantes do desafio, o dia começou às 9h da manhã, com a compra dos jornais que dariam origem às músicas. O processo era um grande desafio artístico. Compor letra e arranjo, gravar, mixar e jogar o produto no site da produtora para download antes do fim do prazo, na manhã de sábado.
m 2010, em acordo com as edições anteriores, foi escolhido um dia com apelo folclórico: a sexta-feira 13. A primeira empreitada aconteceu em 29 de fevereiro de 2008, e o mote era o ineditismo da ocasião, que ocorre de quatro em quatro anos. A segunda, em 1º de abril, permitiu até mesmo que a Panela anunciasse a pouco provável participação de João Gilberto nas gravações. O convite, segundo Diego Gomes, é elogiado pelos mais desinformados até hoje. "Tem gente que me fala: Pô, eu lembro, mó legal, né?! Até o João Gilberto participou, né, cara? (risos)", conta.O objetivo da iniciativa, transmitida em tempo real pela Internet, segundo Daniel Galli, é testar o potencial criativo dos compositores em um esforço concentrado. "Pegamos notícias de jornal para comprovar que o tema foi escolhido no dia", explica.
Às 20h30, quando a reportagem do Portal IMPRENSA chegou à Panela, quatro músicas já estavam praticamente prontas, inclusive a "escalada" do dia, "Sexta-feira 13 não assusta mais ninguém", feita a partir de um apanhado das notícias.
Ao mesmo tempo, "O punk não morre", inspirada nas declarações do presidenciável Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) sobre a legalização da maconha, estava sendo mixada.
O lançamento do livro "O aprendiz de cozinheiro", do jornalista e biógrafo Bob Spitz, rendeu "Tudo acaba em suflê", retirada do título da matéria publicada noBrasil Econômico. Às 21h25, Daniel e a cantora Rosana Galli já ensaiavam o blues "seis por oito" com referências gastronômicas.
De todas as músicas produzidas durante as 24 horas, a mais notável ganhou vida às 4h20 da madrugada de sábado. "O viaduto e o violino", composta a partir do clique de Hélvio Romero, do Estadão, capturou parte do cotidiano do violinista José Rosa, que se apresenta no viaduto do Chá, no centro de São Paulo. O destaque da música fica por conta de ter sido a única feita a partir de uma fotografia.
Após gravar a voz definitiva da faixa, a cantora Rhaissa Bittar foi "apresentada" à foto do violinista José Rosa e permaneceu olhando fixamente para a imagem por mais de dez minutos.
Quando IMPRENSA deixou a sede da Panela, às 6h10 da manhã de sábado, oito músicas estavam prontas; duas ainda não existiam; metade da equipe da produtora se estendia exausta no sofá; e era inevitável o comparativo do Disco Em Um Dia com as "Viniçadas" descritas pelo jornalista Nelson Motta em seu clássico "Noites Tropicais", quando artistas da década de 1950 vararam a madrugada na casa do poeta Vinícius de Moraes com o único e simples objetivo de homenagear a arte por meio da criação espontânea e despretensiosa da música pela música.