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quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Xexéu



O xexéu é uma das minhas aves favoritas. Tenho grande simpatia por eles. São vistosos, barulhentos e engraçados. Tem várias características muito interessantes, como o ninho em forma de bolsa. Vivem, na época de reprodução, em grandes colônias, ás vezes com mais 100 aves. A esperteza de imitar o canto de várias outras aves e, na verdade, imitam qualquer som. Muitas vezes instalam colônias de ninhos em árvores com ninho de vespas venenosas, para afugentar predadores. No entanto, não são capazes de enfrentar um único tucano, que visita os ninhos, um a um, furando a palha e comendo os ovos.
Certa vez, no Hotel do Sesc Pantanal, fomos observar aves bem cedinho, umas 6h30 da manhã. No jardim do hotel, ao lado de uma palmeira com um monte de xexéus, começamos a ouvir um som forte de serra elétrica. Mas serra elétrica ligada ás 6h30 da manhã ao lado de um hotel seria muita insensibilidade. Na verdade, descobrimos que era um xexéu que estava imitando o som da serra que ele ouvia o dia inteiro, por conta de uma reforma que o hotel estava fazendo.

Veja no vídeo abaixo uma colônia de xexéus e a algazarra que aprontam.
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quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Tostão, o papagaio

No final dos anos 60, quando eu tinha uns 7 anos, ganhamos um papagaio, trazido por um parente que tinha umas terras, provavelmente griladas, em Mato Grosso. O papagaio ganhou o nome de tostão, em homenagem ao eterno Tostão, craque de bola, que na época estava no auge. Acho que tostão, o papagaio, se esforçava para tentar um bom relacionamento com a gente. Não era de ficar respondendo a qualquer chamada de loro e a cafunés de qualquer um. A única frase entendível que eu me lembro que ele emitia era, Sú me dá café? Quando estavamos tomando café da manhã na sala ele vinha voando da área de serviço para participar junto com toda a família. Viver num apartamento em São Paulo não é para qualquer um, muito menos para um papagaio, nascido na vastidão do Mato-Grosso. Ele aguentou pouco tempo com a gente. Num certo dia sumiu pela janela.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Amazona aestiva, o papagaio-verdadeiro


Ave emblemática, quase mítica. Está virando raridade livre na natureza. Nas minhas andanças de birdwatcher só consegui ver o amazona aestiva duas vezes. Uma, pelo scope, no alto da torre de 50 m do Cristalino Jungle Lodge, em Alta Floresta. A outra no Pantanal de Poconé. Nem uma boa foto consegui tirar.

Um vídeo (gravado por Haroldo Palo Jr. no Pantanal)
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Características muito interessantes (por Paulo de Tarso Zuquim Antas)

É a espécie de papagaio mais procurada pelo comércio ilegal de aves vivas, por “aprender” a falar. É o loro encontrado desde as aldeias indígenas até nas cidades, apesar da ilegalidade do comércio. Na verdade, ele não fala no sentido exato da palavra. Por viver em grupos e ter uma intensa atividade de contatos vocais com outros papagaios, mesmo membros de um mesmo casal, está sempre repetindo os sons do grupo. Muitos desses sons são aprendidos ao longo da vida e situam-se na mesma faixa de emissão da fala humana.
O comércio é feito através da captura de aves nos ninhos, com poucos dias ou semanas de vida. Criados artificialmente, entram em contato conosco e nossos sons de contato, a fala. Passam a repeti-los, articulando palavras e, até mesmo, frases, para participar da atividade social do grupo humano onde estão, agora, inseridos. Com a idade, perdem ou diminuem a capacidade de aprender novos sons. Dessa maneira, diz-se que papagaio velho não aprende palavra nova.
Na natureza, formam grupos nas áreas de dormida e, ocasionalmente, em locais de alimentação. Durante o dia, os casais deslocam-se para áreas específicas, voltando à noite. Eventualmente, pequenos bandos seguem esses casais. Mantêm contato através de uma seqüência de dois gritos, semelhantes a latidos de um cachorro, escutados à distância e mais fortes no início. (clique aqui para ouvir)
No começo do período reprodutivo, no início da baixa das águas do Pantanal, os casais saem do grupo e estabelecem territórios de nidificação, de onde todos os outros papagaios-verdadeiros são agressivamente expulsos. Chegam a realizar ataques em vôo, usando as garras e bico para atacar as outras aves. Em casos extremos, embolam-se no ar, lutando até próximo do chão.
O macho, na população do Pantanal, é um pouco maior do que a fêmea. Essa condição pode ser notada quando voam juntos e passam perto do observador. Fazem uma postura de 3 ovos, chocados pela fêmea (pelo menos em cativeiro) durante 25 dias. Os filhotes nascem com intervalos de dois a três dias. Em anos muito bons de alimentação, sobrevivem até dois por ninho. Em geral, um filhote sai do ninho depois de 60 dias de nascido.
No juvenil, a plumagem é semelhante à do adulto, com dominância do verde em todo o corpo, um pouco mais claro na barriga. Na cabeça, o azul da testa e o amarelo da cara, garganta e alto da cabeça são pouco evidentes ou ausentes. Bico negro, uma das características principais da espécie, junto com as penas vermelhas na dobra, na asa (no chamado espelho, sobre a asa) e em uma bola na base das penas longas da cauda. As duas marcas vermelhas da asa são mais evidentes em vôo, embora sejam observadas na ave pousada (fotos).



A quantidade de azul e amarelo na cabeça varia de indivíduo a indivíduo, bem como com a idade. Existem, porém, exemplares quase sem amarelo. No Pantanal, há uma grande parcela de aves com muito amarelo na cabeça.
Alimenta-se de sementes, frutos e flores. Quando está pousando ou alimentando-se, raramente grita. Na estação reprodutiva, no entanto, fica pousado em um galho evidente e emite uma série de gritos diferentes, como os dos papagaios de cativeiro.
Aparece em todos os ambientes da RPPN, dirigindo-se ao anoitecer para pousos comunais nas matas secas e cerradões da reserva. É o papagaio mais freqüente em toda a RPPN, sendo a população do Pantanal a mais importante da espécie no Brasil. A captura para o comércio ilegal e a alteração dos cerrados e caatinga diminuiu sua população em grandes extensões do centro-oeste e nordeste brasileiros, apesar da espécie não estar em risco imediato de extinção.

domingo, 5 de outubro de 2008

Abelharucos


A edição de outubro/2008 da sempre estupenda revista National Geographic Brasil está ótima. Tem uma reportagem fotográfica de um pássaro muito interessante e com um nome popular (traduzido não sei de que forma) muito intrigante. É o Abelharuco, da família Meropidae. O nome em inglês é mais esclarecedor, bee-eater, ou seja, comedor de abelhas. É uma ave que não voa no Brasil e na América, é habitante da Europa, África e Ásia ocidental. Mas pelo que eu li na reportagem achei que tem muitas semelhanças com as nossas arirambas, aves da família Galbulidae.
A seguir uma reprodução de parte do artigo da National, revelando o comportamento interessantissimo dos abelharucos, e algumas das maravilhosas fotos.
O texto é de Bruce Barcott. As fotos são de József L. Szentpéteri. A última foto é de uma ariramba, foi tirada por Gill Carter no Rio Cristalino, Alta Floresta, Mato Grosso, Brasil.



"Keats, o poeta romântico da Grã-Bretanha, tinha o seu rouxinol. O americano Poe, não menos romântico, escolheu o corvo. A vida do abelharuco-europeu (Merops apiaster), porém, plena de intrigas familiares, perigos, tramóias e resplandecente beleza, está mais para epopéia, disseminando-se por vários continentes. O abelharuco dispara pelo céu com seu chamativo traje multicolorido: coroa marrom-avermelhada, máscara preta, peito turquesa e penas na garganta da cor de trigo maduro. Vestes adequadas a um pássaro que gosta de viver perigosamente.

Fazendo jus a seu nome, o abelharuco adora comer abelha, embora também aprecie libélula, mariposa, cupim, borboleta - quase tudo que voe. Depois de abocanhar seu lanchinho em pleno vôo, o pássaro retorna ao poleiro para extrair o veneno da abelha. Com o inseto preso no bico, ele soca a cabeça dele num lado do galho, esfregando seu abdome - onde fica a bolsa de veneno - do outro lado. A esfregação faz com que a abelha libere suas toxinas.



A vasta maioria desses pássaros forma clãs que se encarregam de criar os filhotes durante a primavera e o verão, numa ampla extensão territorial que vai da Espanha ao Cazaquistão - um pequeno grupo vive principalmente na África do Sul. Fazendas, campos e vales fluviais abrigam uma fartura de colônias de insetos. Quando topam com uma colméia, os pássaros esbaldam-se - um pesquisador encontrou uma centena de abelhas no estômago de um abelharuco próximo a uma colméia.

As abelhas-européias passam o inverno recolhidas no interior da colméia, o que faz secar a principal fonte alimentícia do abelharuco. Assim, no fim do verão termina o idílio dos pássaros jovens, cujos clãs iniciam longa e perigosa jornada. Bandos massivos de abelharucos da Espanha, da França e do norte da Itália cruzam o estreito de Gibraltar para sobrevoar o Saara rumo a seus territórios invernais na África ocidental. Abelharucos da Hungria e de outras partes da Europa central e do leste atravessam o Mediterrâneo e o deserto da Arábia para invernar no sul da África.



"Tais migrações constituem um estratagema de alto risco", diz C. Hilary Fry, ornitólogo britânico. Ao convergir para o Mediterrâneo, as aves vêem-se forçadas a despistar um tipo de falcão predador que alimenta seus filhotes com pássaros canoros migrantes. "Pelo menos 30% dos abelharucos serão abatidos pelos predadores ou por outros fatores, antes que possam retornar à Europa na primavera seguinte", afirma Fry.

Assim que os pássaros chegam à África, a época do acasalamento começa em grande estilo. Os machos permanecem com o próprio clã, recebendo a visita de fêmeas "estrangeiras", enquanto suas fêmeas partem em missão de adicionar seus genes a outros grupos distantes. Essa prática, restrita aos indivíduos jovens, garante uma saudável mistura de DNA a cada geração - os pássaros mais velhos tendem à monogamia. Dessa maneira, machos espanhóis cruzam com fêmeas italianas, pássaros húngaros se encontram com cazaques, e todos formam seus pares fixos pelo resto da vida.



Quando abril chega, é hora de voltar para a Europa. Machos de 1 ano de idade retornam a seus locais de origem com as novas companheiras. Seus lares são cavados nas encostas de arenito ou barrancas arenosas dos rios já plenas de tocas escavadas por outros pássaros no passado. São túneis ovais do comprimento de uma perna masculina e com um punho de largura. Os abelharucos desprezam as tocas já existentes e constroem as próprias. Eles bicam e escavam por mais de 20 dias de enfiada. Ao fim do trabalho terão removido de 7 a 13 quilos de terra - mais de 80 vezes o seu peso, que oscila entre 44 e 78 gramas -, desgastando em 2 milímetros seu bico.

A época da nidificação é própria para alianças familiares e muita intriga. Os membros da família Meropidae, que inclui 25 espécies de abelharucos, são conhecidos pelo espírito cooperativo com que criam sua prole. Em uma dada colônia é possível haver numerosos "auxiliares de ninho" - filhos ou tios que ajudam a alimentar os filhotes de seus pais ou irmãos. De um ponto de vista evolucionário, os auxiliares também se beneficiam: pais que contam com eles podem prover suas crias com mais alimento, garantindo dessa maneira a linhagem familiar.

O negócio então é recrutar auxiliares. Os abelharucos-europeus os encontram entre os machos cujos próprios ninhos não prosperaram devido a causas naturais. No entanto, trapaça e roubo não são incomuns. "Quase tudo de perverso que você puder pensar acontece nessas colônias", diz o biólogo Stephen Emlen, da Universidade Cornell. Se uma fêmea sai da toca para se alimentar, outra pode se insinuar lá dentro para botar seus ovos - uma tática que visa enganar a vizinha induzindo-a a cuidar da prole alheia. De modo semelhante, se um macho deixa o ninho desprotegido, outros podem aproveitar a oportunidade para copular com sua "senhora". Certos abelharucos partem ocasionalmente para a franca roubalheira assediando vizinhos que tentam retornar ao ninho carregando comida até vê-los derrubar o inseto, logo apanhado pelo ladrão, que bate asas em retirada.



É uma vida curta e espetacular. Um abelharuco-europeu pode chegar aos 5 anos de idade, talvez 6. Os rigores da migração, que incluem escapar de falcões ao longo da jornada, cobram seu preço a todos os pássaros. Os abelharucos hoje em dia arcam com a perda de insetos para os inseticidas e a extinção dos locais de nidificação, como rios que viram canais com margens concretadas. Mas que bela história a deles, apesar de curta: caçadas a abelhas, amor livre, assaltos a colméias, intrigas nos ninhos e as travessias de Gibraltar. Dizem os compêndios sobre pássaros que os abelharucos são muito "comuns em todas as áreas de ocorrência da espécie". No entanto, chamar esse pássaro tão belo e audaz de "comum" é uma tremenda injustiça."

O mais recente livro de Bruce Barcott é The Last Flight the Scarlet Macaw. Jószef L. Szentpéteri fotografou libélulas para a edição de abril de 2006.